9.12.08

Major registrou enchente de 1838 em SC

O texto foi reeditado em 2005 e tem circulado pela internet
Em meio as notícias da enchente que abalou — e destruiu — regiões de Santa Catarina nos últimos dias está circulando um e-mail, com um texto escrito em 1856, que relata uma enxurrada que atingiu a Ilha de Santa Catarina em 1838. As semelhanças da tragédia de 170 anos atrás com a deste ano são grandes. O texto de 1856 é assinado pelo major Manoel Joaquim de Almeida. Em 2005, o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC) reeditou o material. No relato, o major põe no papel suas lembranças do tempo ruim: "temporal de chuva e vento da parte de leste tão rijo, que abriu enormes rasgões pelos morros, quase toda a lavoura ficou rasa", diz ele, logo no início do texto. Mais adiante, Almeida recorda algumas mortes, como a da família do tenente Joaquim José da Silva: 11 pessoas morreram quando a casa "desapareceu". Situação que não difere da tristeza vivida por muitas famílias catarinenses nos últimos dias. Em Jaraguá do Sul, cerca de 60 mil toneladas de terra deslizaram e consumiram três casas no bairro Barra do Rio do Serro. O pai Moacir Lescowicz, 44 anos, a mãe Mônica Lescowicz, 40 anos, e o filho Natan, de 11, morreram ali. O outro filho do casal, Renan, 19, foi socorrido com vida. Este é apenas um exemplo de angústia entre tantas histórias tristes, que chegaram sem avisar no fatídico 22 de novembro de 2008. Data que não será mais esquecida pelo povo catarinense. Abaixo, você confere o texto escrito há 152 anos, mas que poderia muito bem ter sido escrito neste final de 2008. No ano de 1838, nos dias 9, 10 e 11 de março foi a Ilha, e toda a costa da Província acometida de um temporal de chuva e vento da parte de leste tão rijo, que abriu enormes rasgões pelos morros, quase toda a lavoura ficou rasa; todas quantas pontes haviam desaparecido; na capital rebentaram olhos d'água mesmo em terrenos muito elevados, algumas casas foram arrasadas e conduzidas ao mar pela força das águas; na Freguesia de Nossa Senhora das Necessidades, mais conhecida por Santo Antônio, desapareceu a casa, aliás bem construída, do tenente Joaquim José da Silva, e conjuntamente com ele ficou sepultada toda a sua família composta de onze pessoas; na Várzea do Ratones outra casa com a família de João Homem teve a mesma sorte; em outros lugares da província consta que houveram outras vítimas. O mar tornou-se, em grande distância da terra, vermelho de muito barro que recebeu; e mal se viu boiar em algumas partes animais, ou a fortuna de muitos lavradores. Muitas famílias ficaram reduzidas a penúria e miséria. Embarcação houve no porto da cidade, que virou a quilha por cima. No último dia, porém, permitiu a Suprema Providência que começasse a acalmar o temporal, e só assim porque a continuar por mais 48 horas, de certo apareceriam depois sobre a costa, especialmente da capital, só montões ou ruínas, e tal qual edifício. Mal se pode calcular o Prejuízo da Província, e menos julgar o valor das terras que se tornaram inúteis. Por Decreto da Assembléia Legislativa da Província n. 89 de 7 de abril desse ano foi a Câmara Municipal da capital favorecida com um suprimento para remediar os estragos mais sensíveis; e o digno deputado à Assembléia Geral Jerônimo Francisco Coelho pode ali obter que o Governo Imperial mandasse repartir pelos habitantes, a quem o temporal reduzira a penúria, 40 contos de réis; infelizmente, porém, é sabido que só vieram 20 contos, e que estes mesmo tiveram outra aplicação, muito distinta daquela que foram destinados.
Fonte: Diário Catarinense